Cuiabá, 28 de Mai de 2022

Pinceladas sobre os 303 anos de Cuiabá

Passarinhos cantavam. O sol escaldante como agora. Agrupados, os senhores aguardavam a assinatura da ata de fundação, encabeçada pelo bandeirante sorocabano Pascoal Moreira Cabral. Pobre eram pobres. A escravidão oficial recebia as bênçãos da Santa Madre. Índios podiam ser capturados – não eram considerados seres humanos.

Impecável num terno sob medida de S&C, tradicional alfaiataria paulistana, Moreira Cabral preparava-se para o momento solene – botar o jamegão no papel. Ao lado dele, seus embarcadiços. Baixa umidade do ar. Calor imenso. Ameaça de chuva. O bandeirante suava muito.

Num desnível do terreno aurífero, Moreira Cabral escorregou. Não foi ao chão, mas o movimento em falso causou constrangimento e apreensão aos que presenciaram a cena. Do bolso de seu paletó esverdeado e recheado de dinheiro caiu um maço de notas. Para evitar comentários maliciosos, o bandeirante disse que a dinheirama era de seu mano querido.

Ooooooooh! Concordaram os presentes porque sabiam a força que o homem tinha.

Um jovem que acompanhava Moreira Cabral lamentou o tropeção que causou o grito sufocado dos participantes. Condoído disse a um colega ao lado que o bandeirante sofreu vertigem com o calorão: – ‘Crima nubrado’. O outro sugeriu: – dá uma toalha azul pra ele.

Blém-blém-blém-blém batia o sino da Igreja Nossa Senhora do Rosário, símbolo do catolicismo, chamando pra missa das 6 horas. Dono das lavras em seu entorno, Miguel Sutil estava ocupado e não iria. Fechado em seu quarto com Cassombombo, seu escravo sexual, tinha mais o que fazer. Cassombombo era o negro que o atendia sexualmente, segundo o escritor Ricardo Guilherme Dickie.

Cassombombo não foi o único negro humilhado ao longo de três séculos nesse município onde nasceu o herói Marechal Cândido Mariano da Silva Rondon. São Benedito, o reverenciado santo dos cuiabanos católicos enfrentou marginalização pela branca Santa Madre. Isso mesmo! Na quase tricentenária Igreja do Rosário, no topo do morrote à margem do córrego da Prainha não havia espaço para a negritude santificada de Benedito nem de seus devotos. A solução foi a construção de uma capela ao lado do templo dos senhores. Mais tarde a Igreja de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito democratizou-se. Em seus bancos, nas manhãs das quintas-feiras, a presença do Comendador João Arcanjo Ribeiro era figura obrigatória, até que uma certa Operação Arca de Noé o afastou daquele convívio cristão.

O ouro jorrava e a população amava a Coroa Portuguesa. Não havia PCdoB nem Psol. Todos rezavam pela mesma cartilha ideológica.

Isso acontecia quando a América Latina era feudo dos reis de Espanha e Portugal. Pouco tempo depois, em 9 de maio de 1748, a Coroa Portuguesa criou a Capitania de Mato Grosso numa área sob domínio de São Paulo. O nepotismo luso mostrou sua força e o rei Dom João VI nomeou seu primo e capitão-general Dom Antônio Rolim de Moura Tavares para governar o território recém-emancipado. Assim surgiu o primeiro grilo que se tem notícia no continente. Mais tarde essa prática seria bem aperfeiçoada e chegamos ao inusitado da terra em segundo e terceiro andares.

Mato Grosso era imenso vazio demográfico. Cuiabá tinha 32 anos e a aventura em busca do ouro empurrava cada vez mais a fronteira Oeste pra dentro dos domínios espanhóis quando Rolim de Moura fundou Vila Bela da Santíssima Trindade, em 19 de março de 1752, para ser capital do naco de terra que o primão lhe dera pra governar.

Até parece com o agora. Um primo do rei governando num palácio construído por mão de obra escrava numa terra conquistada na esperteza agrária pela fragilidade do Tratado de Madri, que por falta de GPS tinha a utilidade de cobertor nas ensolaradas tardes de Mato Grosso.

Em 1822 o Brasil conquistou a Independência enquanto Cuiabá garimpava em paz. Em 28 de agosto de 1835, quando Dom Pedro II era imperador, o Império transferiu a sede do governo para Cuiabá. Os poderosos do governo juntamente com os togados disseram adeus e pegaram a estrada com o círculo do poder. Isso aconteceu logo após a Rusga, movimento que botou em campos opostos quem mamava e aqueles que queriam mamar. Depois da Rusga a cidade de Moreira Cabral nunca mais foi a mesma – briga, briga, briga pela mamação.

Vila Bela ficou sozinha com seus negros, muitos sofrendo com o maculo e cuidando de uma certa bandeira verde e amarelo nas barrancas do Guaporé junto à Serra de Ricardo Franco, onde bem mais tarde o poderoso Eliseu Padilha encontrou o verdadeiro Caminho das Índias.

Isso acontecia quando a América Latina era feudo dos reis de Espanha e Portugal. Pouco tempo depois, em 9 de maio de 1748, a Coroa Portuguesa criou a Capitania de Mato Grosso numa área sob domínio de São Paulo. O nepotismo luso mostrou sua força e o rei Dom João VI nomeou seu primo e capitão-general Dom Antônio Rolim de Moura Tavares para governar o território recém-emancipado. Assim surgiu o primeiro grilo que se tem notícia no continente. Mais tarde essa prática seria bem aperfeiçoada e chegamos ao inusitado da terra em segundo e terceiro andares.

Mato Grosso era imenso vazio demográfico. Cuiabá tinha 32 anos e a aventura em busca do ouro empurrava cada vez mais a fronteira Oeste pra dentro dos domínios espanhóis quando Rolim de Moura fundou Vila Bela da Santíssima Trindade, em 19 de março de 1752, para ser capital do naco de terra que o primão lhe dera pra governar.

Até parece com o agora. Um primo do rei governando num palácio construído por mão de obra escrava numa terra conquistada na esperteza agrária pela fragilidade do Tratado de Madri, que por falta de GPS tinha a utilidade de cobertor nas ensolaradas tardes de Mato Grosso.

Em 1822 o Brasil conquistou a Independência enquanto Cuiabá garimpava em paz. Em 28 de agosto de 1835, quando Dom Pedro II era imperador, o Império transferiu a sede do governo para Cuiabá. Os poderosos do governo juntamente com os togados disseram adeus e pegaram a estrada com o círculo do poder. Isso aconteceu logo após a Rusga, movimento que botou em campos opostos quem mamava e aqueles que queriam mamar. Depois da Rusga a cidade de Moreira Cabral nunca mais foi a mesma – briga, briga, briga pela mamação.

Vila Bela ficou sozinha com seus negros, muitos sofrendo com o maculo e cuidando de uma certa bandeira verde e amarelo nas barrancas do Guaporé junto à Serra de Ricardo Franco, onde bem mais tarde o poderoso Eliseu Padilha encontrou o verdadeiro Caminho das Índias.

Em 2014 Cuiabá entrou em transe com a Copa do Mundo. Ganhou a Arena Pantanal, mas foi palco de roubalheira durante a execução de obras para o Mundial. No prédio do antigo Moitará o governo instalou a Secretaria de Copa e colado a ela, numa sala bem ao lado, o Tribunal de Contas do Estado (TCE) montou um sistema de acompanhamento das construções em tempo real. Aqui termina essa parágrafo e peço ao leitor que imaginariamente o conclua escrevendo qual foi o desfecho daquela aventura que virou pesadelo e ainda causa problemas a Cuiabá e Várzea Grande. Por favor…

Assim nasceu e desenvolveu-se Cuiabá, que ora chora e sofre com a pandemia da covid-19. Essa abençoada e ensolarada cidade completa 303 anos no próximo dia 8, e desde seus primórdios transmite em calor humano aos que batem à sua porta, a alta temperatura que é uma de suas características tendo por testemunha o céu mais azul e bonito que reflete nas águas do rio que lhe empresta o nome.

Fonte: EDUARDO GOMES - @andradeeduardogomes

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